sábado, 30 de junho de 2012



da série B I L H E T E S | Nº 77
Esse é um bilhete especial. O poeta é um amigo e essa poesia está no lindo livro lançado por ele, EX-ME AQUI. Salve, Dom Renato!
Ela estava do outro lado, esperando o sinal abrir para atravessar a rua. Usava vestido, botas e lágrimas. A moça. Demitida assim, por um erro banal. Achava que era mesmo implicância daquela chefe que acabara de destruir alguns planos dela. Planos desfeitos, restaram olhares solidários dos passantes, o vestido, botas e lágrimas.

Ela estava do outro lado, esperando o sinal abrir para atravessar a rua. Usava um vestido floral, botas e lágrimas. Bonita, a moça. Aquele canalha insensível do namorado tinha terminado com ela depois que ela descobriu que há algum tempo ele a traía. Todas as juras, todo carinho, todas as noites, tudo aquilo não valia mais nada. Agora ela tinha os olhares solidários dos passantes, a tristeza, o vestido floral, botas e lágrimas.

Ela estava do outro lado, esperando o sinal abrir para atravessar a rua. Ou não. Não sabia mais onde queria ir. Tinha perdido o rumo. Usava um vestido floral, botas e lágrimas. Bonita, a moça ruiva. E tão triste. Tinha recebido há pouco a notícia de que sua mãe tinha uma doença grave. Pensar em perder sua mãe doía uma dor sem nome. E a fazia sentir tão órfã, tão sozinha, tão vazia. Antecipadamente, parecia ter perdido tudo. Agora só tinha os olhares solidários dos passantes, essa tristeza doída, vestido floral, botas e lágrimas.

O sinal abriu. Ela passou por mim. Levou meu olhar solidário. E deixou comigo essa história sem nome.

domingo, 10 de junho de 2012

sábado, 2 de junho de 2012



Cartaz para Bailinho dos Namorados
Incomodança Danças de Salão
Design gráfico: Paulo Andrade

terça-feira, 22 de maio de 2012

MEMÓRIA

No meu quintal tinha um rio. Não, não. Era o mar.

da série B I L H E T E S | Nº 76

domingo, 22 de abril de 2012

da série B I L H E T E S | Nº 75
ELETROCARDIOGRAMA

Levou outro tombo. E se ralou todo, outra vez. Mas continua batendo. O danado.

domingo, 25 de março de 2012

NOSSO ESTRANHO AMOR

Já repararam em como tem um tanto gente reclamando da solidão? Querendo achar a goiabada pro seu queijo, a tampa pra sua panela, o guaraná pra sua pipoca, o granulado pro seu brigadeiro? Como explicar tantas pessoas querendo a mesma coisa e elas não se esbarrarem por aí? Que diacho de análise combinatória é essa que não dá certo?!

Um dos meus palpites é que nestes tempos ciberneticamente rápidos, as metralhadoras giratórias disparam freneticamente sem observar de verdade o alvo. Saciam-se os desejos e alimentam-se os vazios. E, ainda, parece que não queremos dispender muito tempo nem paciência pra nos envolver afetivamente com o outro. Se afetar com outro. Imagina então o ônus que seria viver uma história de amor.

A Clarice disse que amor não é prêmio e por isso não envaidece. Talvez seja mesmo preciso ficar nu para viver o amor. Tirar a roupa pode ser a parte mais fácil. Difícil mesmo é desnudar-se. Nu. Apenas com nossa beleza e nossa feiura mais autênticas. Temos tempo e disposição pra administrar essa nossa humanidade toda? Definitivamente, o amor suja as mãos.

Ainda sim, sou um romântico incurável (e um pouco cafona, por isso). O amor dá trabalho sim, (não há como fugir disso), mas também pode te fazer tão melhor. E olha que não tô falando de um amor desses de cinema não. É desse amor do dia-a-dia mesmo. Que vai ao banco, toma neosaldina e come pizza dormida. Que tem tesão, assanhamento, safadeza e também um cafuné distraído no cabelo. Que te manda uma mensagem no meio do dia e que também quer ficar sozinho nessa sexta, simplesmente porque quer. Que te detesta quando você rói a unha e se derrete quando você dá aquela sua gargalhada esquisita. Que teve um dia péssimo no trabalho hoje e está irritado, mas que amanhã passa. Que fica engraçado quando eventualmente está de mau humor, mas que tem humor, porque isso é indispensável. Que foi tão inesperado e que é muito e tão bem vindo.

Tem quem não me deixa mentir: Vinicius foi, no reveillon, ver os fogos em Copacabana, mas quem brilhou mesmo foram os olhos da sua paixão. Nádia deu voltas longas em torno da Terra e encontrou o homem da sua vida e o pai da sua filha no amigo da mesa ao lado, no trabalho. Juninho teve um mal súbito na Praça Sete e quem o socorreu o acompanha pela vida afora. Não é história de filme e nem acontece pra todo mundo, mas existe amor. Com seus ônus e seus bônus. De verdade. De realidade.

Desconfio que, mais cedo ou mais tarde, ele aparece pra quem consegue se desnudar. O amor, esse difícil estranho, está a espreita pra quem tem olhos atentos para vê-lo.

quinta-feira, 22 de março de 2012

BREVE CASO DE AMOR

Seu olhar trombou em mim, meu coração disparou e você se foi.